CDB vs. Tesouro Direto em 2026: o spread compensa o risco de crédito no cenário atual?

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Por Ruana Amorim Silva

Em 2026, o CDB compensa o risco de crédito quando sua remuneração líquida supera o título público equivalente por uma margem suficiente para remunerar também a menor liquidez, a concentração em um emissor e a eventual espera pelo FGC.

Uma taxa apenas igual à do Tesouro não representa prêmio de crédito. No cenário atual, CDBs próximos de 100% do CDI podem apresentar resultado semelhante ao Tesouro Selic, mas ofertas entre 105% e 110% do CDI começam a produzir uma diferença financeira mais perceptível, especialmente em prazos superiores a dois anos.

Essa vantagem, porém, não pode ser analisada isoladamente. Em 3 de agosto de 2026, o CDI estava em 14% ao ano, enquanto a meta Selic permanecia em 14% ao ano. O ambiente ainda favorecia a renda fixa pós-fixada, embora as taxas futuras já refletissem expectativas sobre os próximos movimentos do Banco Central.

Como está o mercado em 2026

Os depósitos a prazo do sistema financeiro somavam R$ 3,90 trilhões em junho de 2026, segundo a série 27.805 do Banco Central. O agregado inclui instrumentos de captação bancária, entre eles CDBs e RDBs, mas não representa exclusivamente o estoque desses dois produtos.

No Tesouro Direto, as taxas também permaneciam elevadas. Na base oficial de 3 de agosto de 2026, os principais títulos apresentavam aproximadamente:

  • Tesouro Selic 2029: Selic mais 0,04% ao ano;
  • Tesouro Prefixado 2029: 14,03% ao ano;
  • Tesouro Prefixado 2031: 14,32% ao ano;
  • Tesouro IPCA+ 2029: IPCA mais 8,15% ao ano;
  • Tesouro IPCA+ 2035: IPCA mais 7,98% ao ano.

Os dados vêm do arquivo diário do Tesouro Nacional, atualizado em 6 de agosto de 2026. As taxas mudam ao longo do dia conforme as condições do mercado secundário.

CDB e Tesouro assumem riscos diferentes

CaracterísticaCDBTesouro Direto
EmissorBanco ou financeiraTesouro Nacional
Risco principalCrédito da instituiçãoCrédito soberano e risco de mercado
ProteçãoFGC dentro dos limitesNão possui FGC
LiquidezDepende do contratoRecompra oferecida em dias úteis
TributaçãoTabela regressivaTabela regressiva
Marcação a mercadoLimitada quando não há venda antecipadaVisível diariamente
Taxa de custódia B3Não se aplica como no Tesouro0,20% ao ano, com exceções

O CDB é uma obrigação da instituição financeira. Quando alguém compra esse título, está emprestando recursos ao banco em troca de juros.

O Tesouro Direto representa dívida pública federal. Seu risco de crédito é considerado a principal referência de baixo risco em reais, mas isso não significa ausência de oscilações. Títulos prefixados e indexados ao IPCA podem sofrer perdas relevantes em uma venda antes do vencimento.

Quanto vale o spread sobre o CDI

Para medir o benefício do CDB, o percentual do CDI precisa ser convertido em retorno financeiro. Com CDI constante em 14,15% ao ano, a remuneração anual equivalente seria aproximadamente:

Remuneração do CDBRetorno bruto anual equivalente
100% do CDI14,15%
105% do CDI14,91%
110% do CDI15,67%
115% do CDI16,44%

A diferença entre 100% e 105% do CDI parece pequena, mas se acumula ao longo do prazo.

A tabela abaixo considera R$ 100 mil aplicados por três anos, CDI constante em 14,15%, tributação de 15% sobre o rendimento e ausência de taxas, resgates ou inadimplência.

Taxa do CDBValor líquido estimadoGanho sobre 100% do CDI
100% do CDIR$ 141.429
105% do CDIR$ 143.963R$ 2.534
110% do CDIR$ 146.548R$ 5.119
115% do CDIR$ 149.185R$ 7.756

A simulação não é uma previsão. O CDI pode cair ou subir durante o período. Ela apenas mostra quanto o spread acrescentaria caso a taxa permanecesse constante.

Em termos econômicos, um CDB de 105% do CDI oferece aproximadamente 0,76 ponto percentual bruto adicional por ano sobre um CDB de 100%. Já um produto de 110% do CDI adiciona cerca de 1,52 ponto percentual.

A questão central é se essa diferença remunera adequadamente a indisponibilidade do dinheiro e o risco do emissor.

Quando o spread pode ser insuficiente

Um CDB com remuneração elevada não é automaticamente superior. O spread pode ser pequeno diante das restrições do contrato.

Um produto de 105% do CDI, sem liquidez por três anos, acrescentaria cerca de R$ 2,5 mil líquidos sobre R$ 100 mil no cenário simulado. Essa diferença pode ser considerada limitada quando comparada à flexibilidade de um título com liquidez diária.

O spread também perde atratividade quando:

  • o valor ultrapassa os limites do FGC;
  • há concentração em bancos do mesmo conglomerado;
  • o vencimento não coincide com o objetivo financeiro;
  • o contrato não permite resgate antecipado;
  • a instituição apresenta deterioração patrimonial;
  • existe outro CDB de risco semelhante pagando taxa maior.

Como referência analítica, diferenças inferiores a 0,30 ponto percentual ao ano sobre um título público equivalente tendem a representar um prêmio estreito. Spreads entre 0,50 e 1 ponto percentual tornam-se mais relevantes, mas continuam dependendo da qualidade do emissor e da liquidez.

Essa faixa não funciona como regra universal. Quanto mais elevada a remuneração, maior pode ser a necessidade de captação do banco, o que torna a análise de crédito ainda mais importante.

O FGC elimina o risco do CDB?

O Fundo Garantidor de Créditos reduz o impacto financeiro de uma eventual quebra, mas não elimina todos os riscos.

A cobertura ordinária alcança até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição ou conglomerado financeiro. Existe ainda um teto global de R$ 1 milhão em garantias pagas dentro de quatro anos.

O cálculo do limite considera todos os créditos elegíveis mantidos no mesmo conglomerado. Dois bancos com marcas diferentes podem pertencer ao mesmo grupo econômico.

O FGC é uma associação privada sem fins lucrativos, e não uma garantia direta do Tesouro Nacional. O pagamento ocorre após intervenção, liquidação ou reconhecimento de insolvência, seguindo os procedimentos de habilitação e validação dos credores.

Durante esse processo, o dinheiro pode permanecer temporariamente indisponível. Por isso, CDB coberto pelo FGC não equivale a liquidez imediata.

Tesouro Selic ou CDB pós-fixado
Imagem Canva

Tesouro Selic ou CDB pós-fixado

O Tesouro Selic tende a apresentar menor risco de crédito e maior previsibilidade de liquidez. Sua rentabilidade acompanha a Selic, acrescida ou reduzida pelo pequeno ágio ou deságio do título.

A B3 cobra 0,20% ao ano de custódia. No Tesouro Selic, os primeiros R$ 10 mil por CPF são isentos, e a tarifa incide apenas sobre o valor excedente.

O CDB pós-fixado pode superar o Tesouro Selic quando oferece um percentual maior do CDI e não cobra tarifas. A comparação, porém, muda conforme o valor investido.

Para aplicações pequenas, a isenção da custódia do Tesouro Selic reduz a vantagem de um CDB de 100% do CDI. Em valores maiores, um CDB entre 102% e 105% do CDI pode ultrapassar o retorno do Tesouro após os custos.

Superar o Tesouro por alguns décimos não significa necessariamente compensar o risco bancário. O prêmio precisa ser analisado em valores monetários e não apenas em percentuais.

CDB prefixado ou Tesouro Prefixado

Em 3 de agosto de 2026, o Tesouro Prefixado 2029 oferecia aproximadamente 14,03% ao ano. Um CDB prefixado próximo dessa taxa teria retorno bruto semelhante, com a vantagem potencial de não pagar a custódia da B3.

A ausência da custódia, contudo, não representa um prêmio de crédito suficiente por si só. Um CDB pagando 14,10% ao ano praticamente apenas igualaria o retorno do título soberano.

Uma taxa bancária entre 14,5% e 15% criaria uma diferença mais visível. Ainda assim, o valor econômico dependeria do prazo, da cobertura do FGC e da possibilidade de resgate.

No Tesouro Prefixado, a venda antecipada ocorre pelo preço de mercado. Se os juros subirem, a cota pode cair. No CDB sem liquidez, o investidor normalmente não acompanha essa oscilação, mas também não consegue acessar os recursos antes do vencimento.

CDB IPCA+ ou Tesouro IPCA+

A comparação entre títulos indexados à inflação segue a mesma lógica. O Tesouro IPCA+ 2035 oferecia IPCA mais 7,98% ao ano na base de 3 de agosto.

Um CDB pagando IPCA mais 8,10% teria apenas 0,12 ponto percentual de spread bruto. Essa diferença tende a ser estreita para remunerar o risco do banco e uma possível ausência de liquidez.

O Tesouro IPCA+ apresenta maior volatilidade antes do vencimento. Quanto maior o prazo, maior tende a ser sua sensibilidade às mudanças dos juros reais.

O CDB IPCA+ reduz a percepção diária dessa volatilidade, mas acrescenta risco de crédito e pode impedir resgates antecipados.

Tributação continua igual para os dois

CDB e Tesouro Direto seguem a tabela regressiva do Imposto de Renda:

Prazo da aplicaçãoAlíquota sobre o rendimento
Até 180 dias22,5%
De 181 a 360 dias20%
De 361 a 720 dias17,5%
Acima de 720 dias15%

A proposta de estabelecer alíquota única de 17,5% constava da MP 1.303/2025, mas a medida perdeu eficácia em outubro de 2025. Portanto, a tabela regressiva permaneceu válida em 2026.

Também existe incidência regressiva de IOF quando o resgate ocorre nos primeiros 30 dias.

Como analisar o risco do banco

A taxa do CDB precisa ser observada ao lado da situação financeira do emissor. O IF.Data, mantido pelo Banco Central, divulga trimestralmente dados de instituições autorizadas a funcionar no país.

Entre os indicadores relevantes estão:

  • patrimônio líquido;
  • índice de Basileia;
  • lucro ou prejuízo recorrente;
  • qualidade da carteira de crédito;
  • dependência de captação de curto prazo;
  • crescimento acelerado dos depósitos;
  • participação em conglomerados financeiros.

Um banco menor pode oferecer taxa maior sem estar em situação crítica. A remuneração superior reflete, muitas vezes, menor acesso a fontes baratas de financiamento. Mesmo assim, spreads muito acima do mercado justificam uma análise mais detalhada.

Qual tende a ser mais eficiente em 2026

O Tesouro Selic continua competitivo para liquidez, reserva financeira e redução do risco de emissor. CDBs de 100% do CDI com liquidez diária podem apresentar resultado próximo, mas não oferecem necessariamente vantagem suficiente para concentrar grandes valores em um único banco.

CDBs entre 105% e 110% do CDI apresentam um prêmio mais claro em prazos de dois a quatro anos. A atratividade aumenta quando o valor permanece dentro da cobertura do FGC e o vencimento coincide com o uso planejado dos recursos.

Nos prefixados e indexados ao IPCA, a comparação precisa utilizar títulos com prazos semelhantes. Uma taxa maior em um CDB de cinco anos não deve ser comparada diretamente com um Tesouro de dois anos.

O que fica para o investidor

O spread do CDB pode compensar o risco de crédito, mas a taxa mínima necessária depende do prazo, da liquidez, do emissor e da concentração patrimonial.

No cenário de agosto de 2026, 100% do CDI representa uma remuneração competitiva, mas próxima do retorno do Tesouro Selic. A partir de 105% do CDI, a diferença se torna mensurável; em 110% ou mais, o prêmio financeiro ganha relevância.

A decisão não termina na rentabilidade anunciada. O ponto decisivo é quanto dinheiro líquido o spread acrescenta e quais riscos foram assumidos para receber essa diferença.

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